Como funciona em São Paulo
- 9 de abr. de 2017
- 4 min de leitura

Foto por Beatriz Moraes - Cemitério da Lapa, SP
E todo dia é assim.
Primeiro, desço na Avenida Santo Antônio, e pego o ônibus que aparecer. Pode ser de número 004-2, ou o 002-1, ou até mesmo o 002, porque todos eles levam para o mesmo lugar: a estação de trem. No ponto, enquanto aguardo, vejo geralmente umas duas ou três pessoas que sempre estão ali. Uma mulher de cabelo castanho-escuro, que quase sempre impacientemente bate seus pés; um rapaz de uns vinte e poucos anos sentado na frente do pet-shop, com fones de ouvido; e, às vezes, um homem de idade com a barba por fazer e cabelos grisalhos, que quase sempre está de casaco. De vez em quando, a mulher e o barbudo pedem informações um para o outro. O rapaz de fone de ouvido sempre fica silencioso, mas, pelo volume de suas músicas, eu sei quando ele está bem, ou quando o dia não foi tão legal assim... Ou é rock, ou é MPB.
Ao entrar no ônibus, o bom-dia para o motorista é essencial. O engraçado é que nunca parece ser o mesmo motorista, apesar de pegar os mesmos ônibus nos mesmos horários. Talvez eu não repare bem o suficiente para descrevê-lo. Talvez seja sempre o mesmo motorista.
A curva que desce para a Rua Salem Bechara sempre me desequilibra. Aí sento no banco da parte da frente, pego minha carteirinha de estudante e rapidamente passo para a parte de trás do ônibus, para me sentir uma cidadã melhor. O cobrador é simpático — às vezes é o careca, ou o que não tem um dente, ou o extrovertido. Gosto mais do careca, para ser sincera. Ele parece ser pai de alguém, ou um tio querido de alguém; aquela pessoa da família que é a primeira a chegar às festas ou a única a reparar se você está bem. O cobrador extrovertido é daqueles que faz piada com os outros passageiros, e eu não me sinto muito confortável fazendo piadas com ele. Já o sem dente, este sempre me pareceu melancólico. Acredito que tenha uma vida triste.
Nos passageiros do ônibus, eu quase não reparo. Com certeza é porque, durante o percurso, fico imersa no que corre pela janela, e nas diversas histórias sobre o mundo que vou criando em minha mente.
Então, chego à estação. Vejo tantas pessoas que não sei mais distinguir seus rostos. O fluxo sempre parece vir a minha direção: mães, empresários, moradores de rua. De vez em quando, brinco de adivinhar suas profissões. Pergunto-me o que eles adivinham sobre mim.
Depois, passo pela catraca, entro no trem e vou até Pinheiros. Lá, vejo tudo. Ricos indo para Vila Olímpia ou para o Morumbi; pobres, que descem geralmente no Grajaú ou Interlagos. Pessoas de pé, vendedores ambulantes. Adolescentes sentados em assentos preferenciais. E eu, tentando me equilibrar, encostada ao lado da porta e observando os que entram e os que saem.
Como geralmente pego o primeiro vagão — que é o mais perto das escadas rolantes da minha estação de destino —, encontro algumas pessoas por lei. Uma delas é uma moça de cabelos avermelhados, que sempre pego trocando olhares com um moço tatuado. A moça desce no Villa-Lobos, e o rapaz continua percurso para além de Pinheiros. Se eles ao menos arranjassem um motivo para conversar — um tropeço, um livro em comum, qualquer coisa — ao menos se conheceriam, ou trocariam nomes.
Mas não é assim que São Paulo funciona, e olhares são tudo o que podem oferecer.
Desço em Pinheiros pela primeira porta, e sou levada pela multidão até as escadas. Subo com o fluxo, e, já lá em cima, tento observar através das paredes de vidro os carros que correm velozes por baixo da ponte, e a paisagem pintada de cinza pelos prédios altos da cidade, que parecem realmente arranhar o céu pálido. Porém, as pessoas são apressadas, e geralmente minha apreciação dura apenas alguns poucos segundos.
Aprecio também as lojinhas de doce e de lanches; logo no segundo andar, já me sinto cansada. Aprecio os seguranças, que mais parecem modelos, e cuja única função é entreter as donas de casa que passam ali todos os dias, descendo as escadas com sacolas de mercado e suspiros.
Quando atravesso a estação e finalmente chego à Linha-4 Amarela do metrô, entro no vagão mais próximo, que geralmente é o mais lotado, e vou esmagada até a Estação Paulista. Ouço conversas de estranhos, brigas de casais, mães dando lições de educação em seus filhos. Vejo pessoas chorando, provavelmente por corações partidos, e apesar de não as conhecer, penso em como seria bom se pudesse consolá-las. Mas de Consolação só há a estação, e é assim que as coisas funcionam em São Paulo.
Conversas importantes por telefone; pessoas procurando umas às outras. Chego à Paulista, atravesso as esteiras rolantes e pego a Linha-2 Verde. Só vou até a estação Trianon-Masp: ali, despeço-me do transporte público. Nessas idas e vindas, vejo as mesmas pessoas, misturadas com uma variedade exorbitante de desconhecidos, e no fundo somos todos estranhos. Mesmo que alguém me pare, que alguém fale comigo, mesmo que seja um velho conhecido, sempre serei uma estranha, uma errante.
Mas é assim que funciona São Paulo. As pessoas não tem nome; eu não tenho nome.
Sou só alguém que passou por você hoje.






Comentários