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A Galáxia de Vivian

  • 30 de jun. de 2017
  • 5 min de leitura

Tatuagem na panturrilha de Vivian

"Vivian Michele, boa tarde! Com quem eu falo, por gentileza?" diz a jovem atendente do Fone Fácil Bradesco todos os dias aos seus clientes. Mal sabem eles que o codinome é só metade verdadeiro: Vivian Ribeiro seria mais preciso. Com 25 anos e carinha de 19, se surpreende quem espera dela só o ordinário. Por trás do estilo despojado e dos cabelos encaracolados, Vivian é bancária, mas também fez dois anos de arquitetura na Belas Artes e acabou desistindo porque, apesar de amar tudo que envolve arquitetura, ela odeia arquitetura. Sem pestanejar, ela se manteve na mesma faculdade, trocou de curso e acabou se achando em Design de Interiores. Formada e não empregada, seu sonho era trabalhar em uma empresa grande, com uma área de arranjo de eventos que tivesse amplas possibilidades. E foi assim que ela se tornou bancária: quem sabe algum dia organizar festas de funcionários não seja seu lance. Ou talvez seja abrir um restaurante, porque depois de tudo isso, ela não se contentou em parar e começou a cursar gastronomia na Academia Gourmet, em São Paulo. Ufa.

Uma Virginiana muito mais empática com seu ascendente em aquário, Vivian também tem um lado indispensável para a conhecermos por completo. Os óculos arredondados já entregam - ela não foi pra Hogwarts, mas não é uma trouxa. Isso mesmo: boa parte de seu tempo livre é dedicado aos estudos e a sua missão para se tornar uma Bruxa de verdade, de carne e osso. A ficção é fichinha perto de suas histórias a respeito de sua jornada atrás desse objetivo - inspirada em uma vertente universalista, ela diz acreditar em tudo, e seus rituais não se focam em um único grupo de deuses. Gregos, egípcios, maias, chineses. "Acredito que haja um ser maior que rege o universo, mas sua criação é tão grande que não é impossível a coexistência de tudo mais".

Vivian começou sua jornada como Bruxa por conta de seu ex namorado, "aquele que não deve ser nomeado". Até então ela era uma atéia em uma família de católicos, e chegou até a frequentar colégio de freiras. "Nunca entendi porque eles gritam tanto". Ao conhecer esse rapaz, toda sua percepção de religião mudou: ele era umbandista, e a levou a conhecer mais sobre esse mundo. Após um acidente de carro que devia tê-lo matado, Vivian participou de um ritual com sua sogra, e nele ela testemunhou os poderes dessa vertente. Embora esteja sempre buscando conhecimento, a saga para se tornar uma bruxa nem sempre é fácil, e Vivian já passou por situações não tão agradáveis. Como quando foi convencida a comprar um Japamala — terço hindu — das mãos de Daniel Atalla, um famoso coach espiritual e tarólogo, descobrindo depois que o objeto sagrado com preço que pisou no seu bolso era feito de nada menos do que plástico, e apesar de ter ajudado no ritual, logo bateu o arrependimento.

Quando se diz que a vertente universalista crê em tudo, não se está para brincadeira, embora muitos ajam com desrespeito. A maior parte dos religiosos está acostumada com uma religião monoteísta, o que os leva direto ao preconceito quando enxergam o que há fora de sua própria realidade. Vivian já passou por poucas e boas — para convencer seus pais que o que ela fazia era bom para si mesma demandou tempo. Mas, como sua religião acabou a tirando de uma forte depressão bem rapidamente, logo a família aceitou o que ela fazia, apesar de acharem que era “tudo macumba”. E, pelo menos por enquanto, nada de velas no resto da casa, só no seu quarto.

Alguns exemplos nos quais os universalistas acreditam são as deusas gregas Hécate (que também é frequentemente associada a Deusa de Três Rostos na Wicca), Ártemis, as entidades hindus Kali e Ganesha, a deusa babilônica Tiamat, entre outros. Em seu quarto, há diversos altares para diferentes deuses, mas o principal e mais utilizado é o altar dos dragões. “Dragões são maravilhosos. Eles têm uma presença forte em todas as religiões, e a vibração deles é intensa”. No universalismo, eles seriam o equivalente aos anjos do catolicismo — mensageiros dos deuses. “Posso fazer um ritual para um deus egípcio, chinês ou africano, e para todos eu sei que os dragões conseguiriam encaminhar a energia”.

Além do culto aos deuses em forma de rituais, também há maneiras de entrar em contato com entidades. Vivian, por exemplo, já consumiu o chá de ayahuasca, frequentemente utilizado em rituais religiosos indígenas como expansor de consciência. O consumo também é visto com preconceito e há muitos estudos que defendem ou recriminam a prática. Vivian disse que durante suas experiências com a bebida, as reações são as mais diversas: tremedeira, desmaios, mal estar e golfos do chá. Claro: tudo é feito dentro de um ritual específico, após uma grande preparação, para que a limpeza espiritual seja realmente efetiva. Mesmo com um “gosto amargo horrível” e com o desencadeio de enjoos, o vômito aqui não tem uma conotação ruim: isso na verdade é visto como uma boa reação, pois, segundo os praticantes, ele desintoxica a pessoa de dentro para fora, levando tudo o que há de ruim embora. No fim de tudo, ela diz que só consegue sentir gratidão, e que essa experiência é extremamente importante.

Uma situação marcante foi uma de suas primeiras oferendas. Vivian estava com a família de seu ex namorado em uma cachoeira. Era 5 da tarde; o lugar estava vazio, e fazia frio em Leme, interior de São Paulo. A oferenda seria em comemoração ao ano novo, e seu primeiro pensamento seria para Iemanjá. Mas ela não se conteve, e acabou acrescentando alguns outros deuses na lista das oferendas: Cablocos, Oxóssi, Egum, entre outros. Ela só se esqueceu da que era para ser a principal: Oxun, justamente a Rainha das Cachoeiras, que acabou incluindo por último na oferenda. E ela não pagou barato por esquecer.

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Vivian encontrou uma pedra chata e grande no meio do rio, perto da queda da cachoeira. Enquanto carregava a panela com sua oferenda, a água fria a congelava por dentro, o que a fez demorar o dobro do tempo para chegar do outro lado. Ela colocou a panela em cima da pedra, e ao voltar uns quatro passos para trás, o pior aconteceu: ela escorregou. Segundo Vivian, só deu tempo de pensar “Morri”.

A correnteza a arrastou cachoeira abaixo, que tinha aproximadamente 4 metros de altura. Como caiu de bunda, não se machucou tanto, e até seu óculos ela conseguiu depois recuperar. Todos que a acompanhavam foram correndo atrás dela, gritando, e quando a retiraram da água, Vivian ergue a cabeça e a vê, em cima da pedra, a encarando com um olhar de remorso. Era Oxun, com sentada como uma sereia, de lado, vestida com uma cor de ouro e de mão levantada. Apesar de ter visto apenas um borrão, visto que ainda estava sem os óculos nesse momento, não foi possível ignorar o olhar dado pela deusa. “Agora nunca mais esqueço”.

Outro fator interessante é a relação religiosa que ela possui com a menstruação: em sua vertente, uma mulher menstruada está no ápice do seu poder mágico, e é o melhor momento para fazer os rituais. Inclusive, o que Vivian mais gosta de tudo isso é essa liberdade feminina: sem precisar ser virgem para rezar por tal deus, ou precisar ser homem para rezar por outro. Para ela, qualquer oração é válida, o que importa realmente é o amor transmitido. Mais do que universalista, Vivian é todo um universo — constelação de possibilidades. E esperamos que a vida a mostre as mais um milhão de coisas que ela pode ser.

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