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Papo Reto - O exercício do jornalismo contemporâneo e o filme Spotlight

  • 9 de abr. de 2017
  • 3 min de leitura

Spotlight: Segredos Revelados, 2015


Desde o seu surgimento, jornalismo é a arte de vender verdades.


Não meias-verdades. Não mentiras do bem.


Verdades.


E ninguém gosta de verdades.


Porque a verdade é uma pedra no meio do caminho.


Ah, Drummond. Com toda a razão: apesar das facilidades que este novo mundo da Era Digital nos trouxe, como todo o “ecossistema” de plataformas online, a mobilidade e a rapidez, ser jornalista é ainda fazer jornalismo. É ainda ser o cara chato. O inconveniente. Mala da turma. Cá e acolá, vemos discussões dos desafios que o momento atual nos traz enquanto profissionais.


Como “vender” a realidade num século essencialmente virtual? Como ter destaque, se adaptar às novas exigências de mercado?


Como agradar você?


Todavia, desafios sempre existiram, e sempre existirão. As palavras têm um poder supremo, transcendente, e arrasta gerações, ideais e histórias consigo. É uma grande responsabilidade usá-las. Quer ver?


Igreja Católica.


Padres.


Pedofilia.


Sim, há milhares de associações que você pode ter feito agora. Apenas porque falei três termos. Sim, termos fortes, poderosos. E que carregam consigo um horror vivido por gerações.


É nesses termos que se pauta Spotlight, vencedor do Oscar 2016 de Melhor Filme. Já assistiu? Pois devia. Vou só dar um saborzinho: no início do século 21, um caso específico acaba levando um grupo de jornalistas do Jornal Globe a investigar a questão da pedofilia por sacerdotes em Boston, e de que forma a Igreja Católica estava encobrindo estes crimes. No meio da corrida contra o tempo, entrevistando vítimas, buscando documentos para comprovar as alegações e ainda lutando contra a resistência das pessoas da própria cidade, são revelados mais de 70 casos de padres pedófilos. Tudo isso baseado em uma história real.


Sim. Porque, mesmo não estando mais na Idade Média, a mentalidade das pessoas pode ser sim tão retrógrada quanto. E vários dos que souberam do processo de investigação tentaram, de alguma forma, boicotar a matéria, por motivos “morais” infundados.


O filme, sucesso de críticas e bilheteria, despertou internacionalmente um sentimento positivo em relação ao exercício do jornalismo. E, para nós, jornalistas, foi uma faísca no coração.


Por quê? Ah... A busca pela verdade, citada antes. A melhor forma de contar uma história, e como definir sua importância dentre tantas outras que surgem todos os dias. A maneira certa de trazer visibilidade para um assunto delicado, em um lugar de mentes e olhos fechados.


E a sensação maravilhosa de estar abrindo esses olhos.


É a alma do jornalismo. Sempre foi.


Contemporânea ou não, essa essência é (ou deveria ser) o que nos move enquanto profissionais. Independentemente da era, da contemporaneidade.


E o exercício desta profissão ainda pode ser assim. Real.


Mesmo com a velocidade e o tato que os dias atuais nos pedem, o bom jornalismo ainda é feito. De uma forma ou outra. Em diferentes plataformas, vemos novas caras aparecendo, mostrando seu potencial. Só precisamos que todos estejam engajados nesse mesmo propósito, para que grandes veículos tragam ao público, com veracidade, esse mundo que nos cerca, que tem tantas cores, tantas belezas e problemas.


Independentemente se há ou não pedras pelo caminho. Porque jornalista cômodo não é jornalista.


Isso nos concerne. Isso deve nos mover.


O mundo nunca vai deixar de se incomodar com verdades. E talvez eu não tenha te convencido da importância do nosso trabalho com esse papo. Mas o meu dever é não ficar calado. Quem sabe um dia você compreenda melhor o que eu quis dizer.


Até lá, a gente vai se falando.


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