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Com os Olhos na Multidão

  • 9 de abr. de 2017
  • 3 min de leitura

A cada ano, a Associação Americana de Prevenção à Crueldade contra os Animais mata cerca de 100 mil gatos de rua nova-iorquinos, para os quais não se encontrou um lar. Irônico? Talvez. E se eu te disser que todo dia, os nova-iorquinos enxugam 1,74 milhão de litros de cerveja, devoram 1,5 mil toneladas de carne e passam 34 quilômetros de fio dental entre os dentes? Ou que todo dia morrem cerca de 250 pessoas em Nova York, nascem 460, e 150 mil andam pela cidade com olhos de vidro? Dados curiosos; talvez irrelevantes, mas que todos nós lá no fundo nos aguçamos ao saber. Encontrar sentido metafísico para esses fatos talvez seja o que há de mais humano em nós — e porque não escrever um livro que seja feito apenas disso?


É assim que Gay Talese, após ter essa brilhante sacada, tece sua obra, Fama e Anonimato (Companhia das Letras, 2004). Após um minucioso estudo na Big Apple (vulgo Nova York), o número de dados coletados foi inimaginável. Para alguns, não havia magia naquelas informações; nada passível de despertar interesse. Mas, como todos os gênios, Talese viu além. A oportunidade de mudar a literatura e o jornalismo como os conhecemos.


Na obra, o autor monta uma espécie de manual de curiosidades que embargou todas as suas descobertas, e a divide em três grandes partes. Nova York – A jornada de um serendipitoso é a primeira, e nela vemos retratados dados gerais sobre a vida cotidiana da cidade mais superestimada do mundo. Vida de pessoas comuns, seus cotidianos; informações sobre gatos, sobre motoristas de ônibus e médiuns. Conta desde como é a vida dos 325 porteiros de hotéis e dos 650 porteiros de apartamentos, até a das 8485 telefonistas da cidade. Resumidamente, é claro.


Logo em seguida, a segunda parte do livro, denominada A Ponte, narra a história da construção da ponte Verrazano-­Narrows — dos seus construtores (quem eram, como viviam), até a inauguração da ponte, e de sua importância. Por fim, a terceira parte, Excursão ao interior, destaca a vida de grandes famosos da época, como Frank Sinatra, ídolo daquela geração, ou Joe Di Maggio (marido de Marilyn Monroe). Daí o nome, Fama e Anonimato.


Uma curiosidade: ao ser lançado no Brasil, em 1973, foi intitulado como Aos olhos da multidão, mas depois teve seu título alterado. Talvez Fama e Anonimato traga um caráter mais verídico à obra, visto que é o jornalista que observa, e ele traz à tona a vida de desconhecidos e de celebridades; uma mistura interessante, que poderia ser mais utilizada pelos autores.


Ainda assim, não me identifiquei com a obra. Digo-lhes o porquê: apesar de ser um fenômeno no jornalismo literário, e de ser precursora de um estilo, o livro não me prendeu. Talvez seja por minha obsessão por boas histórias — honestamente, senti como se a obra simplesmente não tivesse uma história. Ao passar das páginas (20,200,400…), a sensação de que uma grande trama está sendo traçada, ou de que algum personagem vai aparecer nos angustia. É como se todo o livro, com suas 536 páginas, não fizesse nada além de passar informações aleatórias, ou de “encher” uma eterna “linguiça”.


De qualquer maneira, Fama e Anonimato é um livro que merece ser lido por todos os estudantes de jornalismo, e deve servir de referência para reportagens. As descrições são ótimas; o conteúdo é rico. Mas, para aqueles que procuram por uma história bem desenvolvida, talvez haja opções melhores, inclusive do próprio gênero, que satisfaçam essa necessidade de leitor ávido.

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