A “anti-rosa atômica” que mudou a história
- 21 de abr. de 2017
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De guerra em guerra se construiu nossa civilização. E não há quem negue: a 2ª Guerra Mundial foi um dos maiores horrores vivenciados pela humanidade. Contudo, em 1945, no fim do conflito, com um Japão fragilizado que praticamente já estava de joelhos e a decadência total do Nazismo e dos países do Eixo, outra catástrofe aconteceu. Aliás, não apenas aconteceu, mas foi provocada — e desnecessariamente.
Em 06 de agosto, um clarão silencioso. E como disse Vinicius de Moraes, foi “sem cor, sem perfume; sem rosa, sem nada”.
A bomba atômica atingiu Hiroshima há mais de sete décadas. Seu impacto, contudo, se perpetuou por anos. E foi visando a magnitude mundial deste fato que John Hersey, jornalista e escritor norte-americano, decidiu investigar a vida de seis sobreviventes do atendado. No ano de 1946, seu artigo foi publicado em uma edição inteira no The New Yorker, no mês de aniversário de um ano do ataque. O sucesso foi estrondoso — afinal, pouco se era falado a respeito dos horrores da guerra, principalmente através da visão de quem realmente havia vivido as atrocidades. Hersey ganhou notoriedade, principalmente no meio jornalístico, mas não se acomodou. Logo seu artigo se tornou um livro, intitulado Hiroshima (Companhia das Letras, 2002).
O cenário é desolador. As personagens, por sua vez, vivenciam e procuram entender o impacto do que houve de distintas maneiras. E quem são eles, afinal? Há os médicos Masakazu Fujii e Terufumi Sasaki, a senhorita Toshiko Sasaki — Hersey sempre ressalta durante a obra que o fato de compartilharem o sobrenome é apenas uma coincidência, e que Toshiko e Terufumi não são parentes —, o reverendo Kiyoshi Tanimoto, a costureira Hatsuyo Nakamura e o padre Wilhelm Kleinsorge. Honestamente, o que ou quem eles eram não é o que realmente importa: o que está em jogo é o que aconteceu com eles.
E talvez este seja um dos maiores defeitos do livro.
Relevemos: Hersey era jornalista, e este trabalho foi, antes de mais nada, jornalístico. É compreensível que haja pouca profundidade psicológica, e que o leitor conheça rasamente o passado de cada um deles. Todavia, isso deixou a leitura pobre. A empatia com as personagens foi meramente circunstancial, e não houve espaço para um envolvimento maior ou apego. Além disso, as descrições de Hersey são também pouco desenvolvidas, o que afasta o leitor de visualização do cenário, por exemplo, ou das sensações vividas pelos protagonistas. É fácil notar o contraste se compararmos esta obra à outra de seu gênero: o irreverente A Sangue Frio, de Truman Capote, com seu new jornalism e sua clara habilidade para construir universos através das palavras e trazer profundidade. Coincidentemente, foi um presidente de nome semelhante, Harry Truman, que decidiu o destino de todos ao enviar as bombas, tanto a de Hiroshima quanto de Nagasaki.
Apesar da riqueza das informações contidas no livro, Hersey não abusou muito de estruturas narrativas — o que é novamente compreensível. Mas, mais uma vez, este fator também inibe um pouco o prazer da leitura. Antes de mais nada, é necessário saber contar uma história, e muitas vezes a forma de construí-la é mais importante do que seu conteúdo. Ainda assim, a trama é costurada com clareza, objetividade e precisão, se iniciando com informações sobre o que as personagens fizeram nas horas que antecederam o ataque, e tudo o que se decorreu depois. A pesquisa jornalística foi completa, e a obra é admirável em diversos outros aspectos.
Quarenta anos após a publicação do seu artigo original, Hersey escreveu um capítulo final para a obra, descrevendo como as personagens prosseguiram com suas vidas, quais rumos tomaram e quais consequências o passado trouxe para o presente de cada uma delas. Este acréscimo enriqueceu ainda mais o livro, e concluiu da melhor forma possível a obra, permitindo ao leitor uma reflexão profunda e bem fundamentada.
A angústia gerada no leitor é carregada do começo ao fim. Imaginar que todas aquelas pessoas realmente existiram, e o fardo que carregaram durante sua batalha para se reerguerem, é difícil demais. Compreender o peso desta “pequena” ação, tão pequena que foi atômica, que foi humana, e tão grande que explodiu o mundo de muitos. Centenas de milhares de pessoas mortas e feridas. Uma cidade inteira transformada em pó. Todos os sonhos e possibilidades que também desapareceram. Apesar disso, Hersey deu a seus protagonistas uma coisa que nem mesmo este desastre poderia tirar: a imortalidade através das palavras. Suas histórias viverão para sempre, bem como a memória daquele clarão silencioso.






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