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As diferentes faces do crime

  • 21 de abr. de 2017
  • 3 min de leitura

Há um massacre no Estado do Kansas, no fim dos anos 50, em uma pequena cidadela chamada Holcomb. População? 270 habitantes. Motivo? O suposto cofre que armazenava a fortuna da família — que nem sequer existia de verdade. E a arma do crime? Espingarda calibre 12 e uma faca. Até aí, nos parece que não há nada de muito diferente do que acontece todos os dias, em diferentes partes do mundo: assassinatos movidos pela ganância. Contudo, Truman Capote (que, na época, fazia sucesso com o recém-publicado “Bonequinha de Luxo”) não pareceu pensar assim. Ele viu além.

E foi justamente esta visão que o levou a transformar o que seria apenas um simples artigo para o The New Yorker em uma obra prima literária. A Sangue Frio (Editora Vintage, 1966) inaugurou um novo gênero, uma nova forma de se fazer jornalismo. Conhecido como “romance de não-ficção”, a estrutura parte de fatos reais, que são trabalhados e desenrolados com características de obras ficcionais, dando grande profundidade psicológica para os personagens e densidade de detalhes ao narrar os acontecimentos. Por isso, a obra se tornou um clássico, e é referência para o estudo de jornalismo até hoje.

Aliás, o livro em si é um oceano de detalhes. Desde o princípio, Truman descreve desde as cores do céu aos traços físicos com tamanha riqueza que é possível visualizá-los sem nenhuma dificuldade. A forma como a trama é construída, recheada de flashbacks e com personagens muitíssimo bem trabalhados e retratados, faz com que o leitor, apesar de já saber o que acontecerá no final — deixemos claro que os plots da história estão literalmente estampados na capa do livro — sinta toda a adrenalina e o clima de tensão que vai se construindo aos poucos, e que se intensifica conforme vamos conhecendo mais a história de cada um.

Vamos aos fatos. Reais, para deixar claro. Herb Clutter, patriarca da família, era um fazendeiro rico; bom homem, segundo aqueles que o conheciam. E assim também era Bonnie, sua esposa, apesar do intenso período de depressão que estava vivendo. Nancy e Kenyon eram os filhos adolescentes do casal, os únicos que ainda viviam com os pais; ambos muito queridos por todos de Holcomb.

Isso, porém, não impediu Perry Smith e Richard “Dick” Hickock de os amordaçarem, amarrarem e, depois de cortarem o pescoço do senhor Clutter, assassinarem um a um com tiros na cabeça. O fato mais interessante é que levaram deste “latrocínio” apenas 40 dólares, um rádio de pilha, alguns livros e um par de binóculos. Muito longe do que haviam planejado.

Pelo intenso contato que Truman teve com os assassinos, antes de terem suas penas de morte aplicadas, a quantidade de informações fornecidas nos faz ter um viés mais amplo da história. Não são apenas assassinos, são pessoas, com todo um emaranhado de situações vividas e de circunstâncias que os levaram a fazer o imperdoável, o irremediável.

Não, Truman jamais tentou justificar o que aconteceu.

Contudo, com sua genialidade, ele conseguiu trazer à tona a outra face da moeda, e a nos dar uma imersão completa nesta realidade. Nós, no papel de leitores, sentimos empatia com cada um dos personagens: desde a família assassinada, os conterrâneos, amigos que foram entrevistados, os policiais que investigam o caso e até mesmo com eles, os agentes deste crime. Em alguns momentos, há até um estranhamento por esta empatia proposital — todos sabemos o que aconteceu, o que vai acontecer, e mesmo assim torcemos ferozmente para que nossas certezas estejam equivocadas.

Mesmo com essa “previsibilidade”, o livro jamais deixa de ser surpreendente. Capote é um mestre que aprendeu e nos ensinou sobre como a realidade muitas vezes pode ser sim bem mais interessante que a ficção, e como as narrativas podem ter poder. Essa família jamais será esquecida, e nem o que houve com ela, porque todos os presentes na obra foram imortalizados por Truman. E este livro vem como prova de que a literatura é, antes de mais nada, um universo de possibilidades tão grande que é capaz de embargar o real.

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