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De gago à imperador da comunicação

  • 11 de nov. de 2016
  • 3 min de leitura

“Quem quer ter opinião, que monte seu próprio jornal”. Palavras dele. Mal o Brasil saíra da monarquia, e lá estava Assis Chateaubriand, sendo o novo rei. Mas não se espante: sentido figurado serve para isso mesmo. Chatô, como constantemente era chamado, pode não ter de fato chegado a ser um monarca soberano no país, mas com certeza mudou a história nacional para sempre, e a construiu com base em seus caprichos e sua imensa capacidade de manipulação. Não era muito amado por seus métodos, mas era temido por todos, pelo imenso poder que estava em suas mãos — o poder da comunicação. E foi com base nesta figura fascinante e excêntrica que Fernando Morais escreveu as 720 páginas do livro Chatô, o Rei do Brasil (Companhia das Letras, 1994), que depois, em 2015, teve uma adaptação homônima para o cinema. Mesmo tantas páginas e um longa-metragem quase não foram suficientes para sintetizá-lo.


Assis Chateaubriand: quem não ouviu falar? Mesmo sem conhecer a quem pertenceu este título, ele parece estar em todos os lugares. Quem vê a imensa torre do SBT que leva seu nome, localizada no bairro da Sumaré, ou o enorme Museu de Artes de São Paulo (também com seu nome), na Avenida Paulista, jamais imaginaria os 1,5 metros desse personagem nada carismático. Apesar disso, o tamanho de suas conquistas é incomparável. Mesmo na infância, sendo constantemente humilhado por ser gago, Chatô foi autodidata. Ele sonhou alto, e tão logo a gaguice passou, seus sonhos também se concretizaram: os Diários Associados, corporação midiática fundada por Chatô, já foi o maior conglomerado da história do Brasil, e na ponta do iceberg a Revista Cruzeiro ocupou seu espaço, inovando graficamente e sendo de muita importância também para o fotojornalismo brasileiro. No restante do iceberg, nada menos do que mais de 100 jornais, revistas, além de emissoras de rádio e TV. Muito bom para quem era “só um gaguinho”.


E não paramos por aí: este paraibano orgulhoso também trouxe a TV e a inseminação artificial para nosso país; inaugurou museus, movido por sua paixão pela arte; foi senador; embaixador do Brasil na Inglaterra; ocupou uma cadeira na Academia Nacional de Letras. "Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei", proferiu, quando literalmente consegue que Getúlio Vargas (presidente que ele ajudou a eleger) mude uma lei apenas para que ele tivesse a guarda da filha. Ufa!


Ambicioso e sagaz, Chatô mudava de mulher e de opinião com uma facilidade exorbitante. E ainda tinha tempo para suas tramoias chantageando grandes empresários para conseguir dinheiro para seus projetos. Se não conseguissem, as consequências eram o pior pesadelo de qualquer burguês: a mídia ficaria contra eles em um piscar de olhos. Isso porque Assim Chateaubriand não apenas dominava a imprensa; ele era a imprensa, e por isso seu apelido de “Cidadão Kane brasileiro”. Mesmo no fim da vida, tetraplégico por conta de uma trombose, a escrita continuou sua aliada, e sua influência se estendeu mesmo depois de sua morte.


Quanto ao livro, posso dizer que é deliciosamente bem escrito. Fernando Morais não mediu esforços para ir a fundo em sua pesquisa, e trazer dados importantes para compreendermos melhor a história não apenas do magnata, como também do Brasil. Pequenos e grandes acontecimentos ganham sabor nas palavras de Morais, que soube retratar muito bem Chatô, sem diminuir a grandeza de seus atos e trazendo emoção aos acontecimentos. Bem escrita, a biografia se assemelha a livros como do new journalism pela narrativa fluída, tão agradável quanto ficção. O cuidado que teve ao escrever a obra trouxe veracidade e foi um real reflexo dessa figura tão controversa e importante para nosso país.


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