top of page

A Sinfonia da Linguagem

  • 7 de mai. de 2017
  • 3 min de leitura

Uma nota musical é importante, mas não é tudo. A melodia, composição e execução transformam essa série de Dó-Ré-Mi-Fás naquilo que realmente escutamos. Ainda assim, não há nada mais importante para uma música do que seu ouvinte. Cante sobre o mar, sobre o céu, sobre as rosas — quem realmente criará o significado será um completo desconhecido. E assim é com as palavras: a magia do subjetivo. Um mesmo livro pode ser interpretado de diferentes formas por diferentes pessoas. O papel da comunicação, então, se faz ainda mais importante: como dar a um texto determinado sentido que seja compreendido por qualquer um que o leia?

A cultura é um conjunto de sistemas simbólicos (linguagens, regras, religiões, ciências e afins). Pierre Bourdieu, famoso sociólogo francês, definiu que a cultura são significados e valores que caracterizam grupos sociais. Além disso, ele também utiliza a metáfora do capital cultural: tudo, desde o momento de seu nascimento, será acumulação deste capital. Uma criança negra da periferia, com pouco acesso à educação e sem perspectivas para o futuro, não terá o mesmo conhecimento de mundo que um jovem branco da mesma idade, morador da zona nobre na cidade, que tem um habitus diferente. Ambos podem viver na mesma cidade, frequentar o mesmo metrô, mas ainda estarão infinitamente distantes um do outro.

Mesmo pessoas que coexistem no mesmo espaço, na mesma cultura, podem ter galáxias pessoais opostas e enxergar o mundo por ângulos totalmente distintos. Com certeza, se lerem o mesmo poema, a chance de interpretarem de forma totalmente distinta é grande. Então, a conclusão não é difícil: culturas diferentes aumentam infinitamente as possibilidades de perspectiva. E iremos além — traduza esse texto para qualquer outra língua; o significado nunca será o mesmo. Isso porque cada idioma embarga uma série de particularidades e expressões próprias, que não podem ser cem por cento transpassadas. “Saudade” é nosso exemplo da língua portuguesa. Outro exemplo clássico é a palavra “Meraki”, que só existe em grego, não possui sinônimo, e tem um significado poético: colocar um pouco da sua alma e coração em tudo o que fizer.

Baseado em uma das premissas do estruturalismo, o antropólogo Lévi-Strauss diz: “O significante precede e determina o significado”. Simplificando, a composição do que é escrito designará o que será entendido. Figuras de linguagem são a prova disso. Onomatopeias, pleonasmos e ironias, por exemplo, transformam totalmente o sentido do texto, se usadas de forma adequada. Elas, inclusive, são o pesadelo de qualquer tradutor: tente encontrar uma aliteração da língua portuguesa que tenha semelhante com mesmo sentido em alemão. E boa sorte.

Por falar em figuras de linguagem, a metonímia pode esclarecer muito bem toda essa relação. Dizer que vai usar um Cotonete é dizer que conhece a marca, que usa a marca, que vive em uma cultura na qual “hastes flexíveis” não são apenas “hastes flexíveis” — elas são Cotonetes. Mas nem todas as pessoas de todos os lugares do mundo desde os primórdios da existência humana conhecem o Cotonete. Ou seja, a frase só terá sentido em determinado espaço e tempo na história.

Não há, então, fórmula mágica para a produção de sentido. Escreva sobre o que quiser, diga o que precisar. Assim que for lido ou ouvido por alguém, já não está mais em suas mãos. O leitor ou ouvinte provavelmente compreenderá exatamente o que ele quiser ou puder a respeito do seu trabalho. E voltamos para a música: o maestro pode conduzir, mas a orquestra é grande demais para ser executada por um só homem.

Comentários


Veja Também

© 2023 by T.S. Hewitt. Proudly created with Wix.com

bottom of page