As flores são de plástico, e os frutos, proibidos
- 30 de jun. de 2017
- 3 min de leitura

O que é, o que é? Um mundo que não existe, mas que é habitado por quase todos. É o abrigo de todo o conhecimento catalogado pela humanidade, de livre acesso para qualquer um que entre — independentemente da etnia, religião ou classe. Que não tem cheiro nem sabor, e mesmo assim é preenchido por uma paleta de cores mais vasta do que as da natureza. Nada pode atingi-lo, porque fisicamente ele não existe. Se você pensou no Paraíso, pensou errado. Mas a internet em vários aspectos até que se assemelha a um.
Nascida nos Estados Unidos em 1969, a internet brotou, germinou e, depois de florescer, foi infestada por multidões. Seu começo, porém, não foi nenhum “mar de rosas”. Preste atenção: fim da década de 60. Auge da Guerra Fria. O surgimento não foi poético, mas burocrático: era necessário que os filhos do Tio Sam superassem os soviéticos na disputa de influência e poder. Para tanto, o desenvolvimento dos meios de comunicação e das mídias foi massivo. Inicialmente conhecida como ARPANET, sua principal função era utilização militar. Nos movimentos posteriores de contracultura, ficou consolidado o modelo que conhecemos hoje; livre, acessível e utilizada como espaço-público.
Após sua disseminação, muito foi debatido sobre o poder exercido por essa mídia na vida coletiva. Nova linguagem, novo meio, novidade e inovação — e, de novo, novos problemas. O universo virtual, habitado tão fervorosamente por todos nós, acabou sendo palco de coisas boas, mas também de atrocidades. Diz-se ciberespionagem, ciberbullying, cibercrime. Se ao menos fosse eliminado o prefixo... Manuel Castells, sociólogo espanhol, defende a ideia de que a internet não é revolucionária por si só, e ela só será melhor se a sociedade for melhor. Ou seja, o que há no mundo virtual há no real: seres humanos. Imperfeito e mutável. Como no Génesis, o fruto proibido simboliza o conhecimento do bem e do mal, mas quem pecou foi Eva, e não a maçã.
“Os homens criam as ferramentas. As ferramentas recriam os homens”. O filósofo Marshall Mcluhan, dono da frase, disse muito falando pouco. A internet, para ele, é o fim de muitas fronteiras, mas também uma alteração em todo o sistema de comunicação. Uma aldeia global, que rompe com a era analógica e democratiza a informação. Até as relações interpessoais não são mais as mesmas, nem mesmo no off-line. As outras mídias, como o rádio e a televisão, aos poucos precisaram se adaptar a essa tecnologia, e fazer conteúdos que se encaixassem no novo espaço que se abria. Um espaço mais amplo, que perde a noção de limites continentais e que naturaliza o “ao vivo”. Tudo em tempo real, de uma ponta a outra do globo.
É inegável: o sistema do word wide web aproximou o mundo no geral. Porém, há quem diga que afastou também o indivíduo de si. E o myself foi substituído por uma cansativa e incontável quantidade de selfies.
O curioso é a nossa entrega total a esse universo. Compartilhamos dados pessoais, localização, fotos que em nada nos simbolizam. A mídia se engalfinha de tal forma na nossa rotina que, de repente, “eu posto, eu sou”. Docilmente, entregamos as cartas e permitimos uma exposição total de nossas vidas. Deleuze chamaria isso de “Sociedade de Controle”: bancos de dados e senhas viram rotineiros, e o login passa a ser a sua identidade. Não há uma forma de dominação mais efetiva do que o a vigilância anônima: não é uma violência física, mas psicológica, e igualmente destrutiva. Em uma analogia óbvia, se está online, é bom andar na linha.
Somos uma geração de escravos da tecnologia. E, nesse Éden, é bom tomar cuidado. A tentação é grande: toda a informação em um só lugar. Mas nunca sabemos quem está do outro lado da tela. Ainda assim, o que importa é que ela criou uma nova era na humanidade, que com certeza perpetuará. Porque, como diria o poeta, “As flores de plástico não morrem”, e mais do que nunca, precisamos delas no nosso Jardim.






Comentários